TOXICIDADE RELACIONADA À DEFICIÊNCIA DE DIIDROPIRIMIDINA DESIDROGENASE APÓS USO DE FLUOROPIRIMIDINAS - RELATO DE CASO
Fluoropirimidinas representam uma classe de quimioterápicos usualmente bem tolerados e amplamente utilizados na prática clínica para o tratamento de tumores de alta prevalência em nosso meio, tais com cólon, reto, mama e cabeça e pescoço. Pacientes com deficiência da enzima diidropirimidina desidrogenase (DPD) apresentam marcada toxicidade em virtude de metabolização insuficiente da droga.
Ilustrar caso clínico de paciente com provável deficiência de DPD, salientando a importância do seu reconhecimento.
Homem com 64 anos, caucasiano, diagnosticado com colangiocarcinoma hepático irressecável em abril/2015 apresentou progressão hepática e pulmonar da doença após 12 ciclos de Cisplatina e Gencitabina, quando então lhe foi prescrito Capecitabina (2000mg/m²/dia, por 14 dias, a cada 21 dias) associado a Oxaliplatina (130mg/m², no primeiro dia de cada ciclo). No 17º dia de tratamento do 1º ciclo, em atendimento de emergência, apresentava mucosite grau 3, diarreia grau 3, insuficiência renal aguda e hiperpigmentação da pele em áreas fotoexpostas. O quadro foi estabilizado com reposição volêmica, loperamida e nistatina, recebendo alta com recuperação completa da função renal e da mucosite após 7 dias de internação. O tratamento com Capecitabina foi suspenso definitivamente pela equipe da oncologia.
Relato de caso.
A Capecitabina é uma fluoropirimidina oral cuja metabolização em compostos inativos é realizada pela enzima DPD. Polimorfismos e mutações genéticas que resultam em deficiência parcial ou total da atividade da DPD estão presentes em 2-3% da população. Pacientes com redução na atividade enzimática da DPD apresentam risco elevado de toxicidade grave após exposição a fluoropirimidinas. O quadro clínico inclui mucosite, diarreia, neutropenia e neurotoxicidade, podendo levar a óbito se não adequadamente tratado. A pesquisa rotineira de deficiência de DPD não é realizada de rotina em vista da baixa disponibilidade e limitações técnicas na sua padronização. Assim, depende da suspeição clínica do médico a partir do quadro clínico. O acetato de uridina é o único fármaco aprovado nos Estados Unidos para tratamento emergencial de toxicidades com fluoropirimidinas, porém não está aprovado no Brasil. O presente caso destaca a importância do reconhecimento do quadro por parte do emergencista, pois a suspeição do diagnóstico e intervenção precoce é essencial para que o desfecho seja favorável.
Fluoropirimidinas, capecitabina, deficiência de DPD, toxicidade.
Clínica Médica
Latin American Cooperative Oncology Group - Rio Grande do Sul - Brasil, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, Serviço de Oncologia do Hospital São Lucas da PUCRS - Rio Grande do Sul - Brasil
Michele Possamai, Monique Wickert, Pedro Bortolosso, Guilherme Parisotto Sartori, Márcio Debiasi